O que 2014 deixou...

O ano de 2014 está chegando ao fim. Em meio a todas as nostalgias que o período traz, propomos uma reflexão sobre o que aconteceu no campo ambiental. O texto, publicado na última edição do ano da revista Cidade Nova, foi escrito por Rafael Jó Girão, gestor ambiental, mestre em políticas públicas ambientais pela USP/ESALQ, diretor da ONG Florespi e consultor do Programa Município VerdeAzul da Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Problemas ambientais inadiáveis

2014 foi um ano caótico para o meio ambiente, com sérias consequências para a sociedade e a economia do Brasil. Mas o pior é ver que governos, empresas, ONGs e sociedade ainda não compreenderam que no planeta existe um equilíbrio na relação entre os seres vivos e destes com o ambiente físico que habitam. E, se entenderam, ainda não conseguiram transformar esse pensamento em ações mais sustentáveis.

Um bom exemplo dessa situação é a questão da água. Enquanto Norte e Sul sofrem com inundações, Centro-Oeste e Sudeste lutam contra a seca prolongada. Há alguns anos isso já era previsto por ambientalistas e especialistas em mudanças climáticas, levando em conta a importância da Floresta Amazônica na produção e distribuição das chuvas em todo o país e a função do Cerrado na recarga de aquíferos e lençóis freáticos, além da proteção das nascentes de rios, como o São Francisco. Apesar disso, esses biomas continuam sendo destruídos, como reforçam pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da ONG Imazon, que mostram a reincidência do desmatamento da Amazônia.

As chances para ampliar a proteção das áreas de preservação permanente, reservas legais e florestas – e, consequentemente, melhorar a produção e qualidade da água – existiram, mas não receberam a devida atenção. O Novo Código Florestal e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), por exemplo, ainda carecem de detalhamentos para um funcionamento ideal. Tratados internacionais como a Declaração de Nova York sobre Florestas, que propõe, entre outras coisas, zerar o desmatamento até 2030, e o Protocolo de Nagoya, importante instrumento para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade, não foram assinados pelo governo brasileiro.

Além disso, em 2014, os estímulos públicos para a aquisição de carros próprios foi infinitamente superior ao investimento no transporte público ou em outras alternativas de mobilidade. Por isso, os congestionamentos devem continuar se espalhando por todo o país. Quanto mais tempo as pessoas ficam com o carro ligado, mais dinheiro e combustível são consumidos e mais poluentes são enviados para o ar.

Outra tentativa frustrada em 2014 foi a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que previa o fim dos lixões até agosto e o fortalecimento da coleta seletiva, mas que agora pode ter o prazo de aplicação adiado.

Olhando tudo isso, o balanço ambiental para 2014 não é positivo, mas serve de exemplo para 2015. Cada um precisa entender seu papel na construção de cidades e de um país mais sustentável. Atitudes e escolhas individuais são importantes, mas para resolver os grandes desafios é essencial a ação de todos os setores da sociedade nos espaços oficiais de participação, como conselhos e conferências municipais, estaduais e nacional de Meio Ambiente, consultas e audiências públicas, entre outros. Não basta desejar um ano melhor. É preciso construí-lo conjuntamente.

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conselho municipal de meio amb, CAR, lixões, política nacional de resíduos , retrospectiva, seca



Sobre

Estamos em processo de adaptação ao planeta Terra e ainda precisamos aprender a conviver e cuidar dele da mesma forma que cuidamos de uma criança ou um idoso. Ele é um sistema vivo, no qual todas as partes interagem, inclusive conosco. E o cuidado é essencial, mais do que a razão e a vontade. Mas para cuidar é preciso conhecer. Por isso, este blog se propõe dialogar sobre meio ambiente, destacando fatos importantes para quem quer ambientar-se ainda mais com a nossa casa.

Autores

Ana Carolina Wolfe

Formada em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), é repórter de Cidade Nova desde 2011. Começou a se interessar por meio ambiente em 2002. Desde então, se apaixonou pela “tradução” de temas ambientais ao público. Hoje, além de Cidade Nova, atua como assessora de imprensa em um centro de pesquisa voltado ao agronegócio e como diretora na ONG Florespi.