Um tributo aos Zé Castanhas

“O comportamento das vítimas contribuiu de certa maneira para o crime (…), pois tentaram fazer justiça pelas próprias mãos”. A afirmação, cheia de vícios, parece ter sido feita da observação dos recentes fatos que aconteceram no Brasil - desde o acorrentamento de um jovem ao poste até o linchamento de uma mulher. Porém, ela foi feita há mais de um ano, em texto da sentença final que inocentou um dos acusados de mandar matar José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo. Zé Castanha, como era conhecido, sofreu uma emboscada no dia 24 de maio de 2011. Os dois pistoleiros, que além de matarem o extrativista, levaram uma parte da sua orelha como prova do crime, foram condenados a 40 anos de prisão. Já o acusado de ser o mandante continua em liberdade, morando no local da disputa que levou aos assassinatos.

A “justiça” de Zé e sua esposa era defender as florestas repletas de castanheiras. Graças às denúncias deles, 10 serrarias de castanheiras foram fechadas. Estas árvores são protegidas por lei, mas são a principal matéria prima para produção de madeira e carvão vegetal. Este é um dos comércios ilegais que mais movimenta aquela região amazônica. Mas, como o Zé Castanha, existem muitos outros por aqui...

De acordo com a organização Global Witness, em relatório publicado há um mês, quase metade dos assassinatos de ativistas ambientais em todo o mundo ocorreu no Brasil, entre 2002 e 2013. De 908 casos, 448 foram registrados aqui. Os dados analisados são somente aqueles confiáveis e verificados por parceiros da organização, o que sugere que o número seja ainda maior. No Brasil, diariamente, muitos Zé Castanhas, que tentam defender árvores, mananciais e verdadeiros santuários são perseguidos, ignorados pelas autoridades e acabam defendendo patrimônios públicos sozinhos. A Comissão Pastoral da Terra aponta que somente na Amazônia, desde 2005, 199 pessoas foram assassinadas por defenderem o uso legal e consciente da terra. A própria irmã de José Cláudio sofreu ameaças no último sábado (24), durante a realização da marcha “A floresta vai gritar”, que recordava a memória e a luta do casal extrativista, diante de um público de 150 pessoas no Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira. “Diz pra essa moça que tá falando no microfone tomar cuidado com o que ela fala”, avisou o motorista de uma caminhonete parada no meio da estrada.

Mas por que a defesa dos bens naturais provoca tanta ira? Na quase totalidade das vezes, por trás das ameaças há um só interesse: o financeiro, que resulta em crescimento a todo custo.

Nas palavras do próprio José Cláudio, “é preciso saber dizer não. (...) Enquanto existir quem compra madeira ilegal vinda da floresta, isso [o desmatamento] vai continuar. (...) Se não tiver comprador ninguém vai entrar no meio da mata para tirar árvores como a castanheira, pois vai vender para quem?”.

O documentário Toxic Amazon, produzido logo após a morte do casal, ajuda a entender a luta de Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo e quem eles enfrentavam. Assita também o TEDxAmazonia com a participação de José Cláudio.

 

 



Sobre

Estamos em processo de adaptação ao planeta Terra e ainda precisamos aprender a conviver e cuidar dele da mesma forma que cuidamos de uma criança ou um idoso. Ele é um sistema vivo, no qual todas as partes interagem, inclusive conosco. E o cuidado é essencial, mais do que a razão e a vontade. Mas para cuidar é preciso conhecer. Por isso, este blog se propõe dialogar sobre meio ambiente, destacando fatos importantes para quem quer ambientar-se ainda mais com a nossa casa.

Autores

Ana Carolina Wolfe

Formada em jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR), é repórter de Cidade Nova desde 2011. Começou a se interessar por meio ambiente em 2002. Desde então, se apaixonou pela “tradução” de temas ambientais ao público. Hoje, além de Cidade Nova, atua como assessora de imprensa em um centro de pesquisa voltado ao agronegócio e como diretora na ONG Florespi.